terra
Oh, terra mal
dita
pelos teus poetas
Perdida no tempo
dentre os buracos
que te sepultam
sob os escombros
dos homens,
dos pedaços de esperança
eternas que tivestes
Vestiste terra de terra
e nada mais
Os homens,
esses sonhadores
com asas de Ícaro,
caem no chão de que eles fazem
ventre
Mal
dito poeta que canta glórias mil
sepultou-se também
no infértil solo do qual se revestia
e se banhava todos os dias
Oh, terra santa
os demônios é que te dominam
Oh, princesa que nunca chegará à
rainha
coroastes de terra tua mente
insana
e o pó de tuas palavras
ainda me enche os ouvidos de
poeira
Saia de mim esse teu gosto
de ferrugem
e da minha pele
saiam as mãos do meu pai
onde se desenha tua maldade
Oh, terra minha
não tens descanso da esperança
que te suja toda
Transformas em barro os
derradeiros homens
Cobre as cabeças com o teto que
ainda haverá de desabar
por cima de todos nós
e asseguras um abrigo que nunca
nos guardará do sol
Oh, terra minha
és na verdade de outro
que te imaginou esposa
e te fez amante
e onde te encravou os pés e mãos
sem mais querer tirá-los
e sem carinho algum
Oh, minha
ainda,
amada terra,
quiçá não terão os deuses te
prometido algo
Serás pois oposto ao paraíso
e nova terra na qual te
transformarás
serás então
o que quer que todos querem que
sejas
Oh, terra
pela qual já tive paixão
num tempo perdido na memória
que não encontro em lugar algum
da minha mente
- onde me sepulto a cada dia
e ressuscito em todos eles
para voltar a morrer
Oh, terra minha
não sei como declarar-me
: se teu assassino
ou
um dos teus mártires
Morte a todos os poetas que te
recitarem
Paulo Gomes